Entre Virgulas: Uma Triste Realidade



João era um menino como qualquer outro da sua idade: alegre e brincalhão. Muito pobre vivia com sua mãe e mais cinco irmãos no morro. Do pai tinha uma lembrança vaga, enfumaçada pois abandonara-os muito pequenos. A mãe era prostituta para por ''bóia'' na mesa.


E João tinha um sonho: ser jogador de futebol. Seus companheiros de pelada o apelidaram de ''Pelé''.


Tinha destreza com a redonda, o amor pelo futebol estava no corpo, os olhos brilhavam a cada jogada. O time contrário o temia. Todos os finais de tarde jogavam no campinho do morro. João tecia sonhos, muitos sonhos...


Queria dormir numa cama de verdade e não no colchão imundo jogado ao chão de seu barraco. Ir a bons restaurantes, comer comida chique em vez do sempre pirão com mandioca e pão velho que era só o que tinha. Botar roupas bonitas, bermudas coloridas, tênis novo em vez do calção puído e dos tênis velhos que ganhava de doação.


Ele tinha ''olho'' no filho do seu Gumercindo, um senhor do outro lado da cidade. Esse sim, levava um vidão! Estudava em escola particular, comia do bom e do melhor, sempre bem vestido. Porra de vida a sua!


E João sonhava... Quem sabe um dia sua sorte mudasse. E mudou! Num determinado dia no final do jogo um senhor bem arrumado veio falar com ele. Disse que o tinha visto jogar e que ele era fabuloso. Falou das coisas lindas que ele poderia ter, que ele estava perdendo tempo. Perguntou sua idade: -''14 anos senhor''. Ofereceu-lhe um serviço, coisa fácil: Entregar caixas de cigarros para seus amigos. Ele lhe pagaria bem, muito bem! Os olhos de João saltaram de órbita, seu globo ocular vidrou. Aceitou na hora!


E com o tempo passou a fumar também (o patrão lhe oferecia). Nunca mais foi em casa. Nunca mais jogou futebol. O dinheiro que ganhava do patrão consumia em cigarros. Não podia mais passar sem eles. Com 20 anos, nem sombra do que fora. Magrelo, tosse constante, pele envelhecida, olheiras escuras, olhos vermelhos...


As drogas tinham acabado com ele. E o sonho acabou quando os policiais o cercaram para apreender os cigarros que traficava. Quiz reagir, morreu na sarjeta com uma bala na testa.


Pobre João!


Pobre tantos outros por este Brasil a fora...


A sarjeta ficou com seu corpo. Seus sonhos a droga levou!



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