Aposentado envia bolo de aniversário a vizinhos que conheceu pela sacada em Porto Alegre

Não somente as amizades antigas se reinventaram em 2020. Sem encontros presenciais devido ao isolamento social, novos laços se criaram, com as peculiaridades impostas pelas restrições de circulação — até mesmo em uma das regiões onde olhar para os lados significa, na maior parte das vezes, cuidado extra para desviar de um buraco ou atravessar a rua: o movimentado centro de Porto Alegre.


Da sacada do sexto andar, um grupo de amigos avistou, no prédio do outro lado da Avenida Salgado Filho, um senhor de frente para a janela. Acenos foram trocados e mantidos com mais frequência. Alguns dias depois, o interfone tocou.


— Ele mandou um bolo. Estranhamos no início. Como alguém manda um bolo inteiro? Mas aí entendemos pelo bilhete — relembra a estudante de Arquitetura e Urbanismo Natália Nunes, 24 anos.


O bilhete era um cartão postal, no qual se explicava o presente: o vizinho estava de aniversário, mas não tinha com quem comemorar. "Aos meus vizinhos do sexto andar e novos futuros amigos. Queridos, estive de aniversário e passei sozinho na pandemia. Então comam este bolinho para comemorar comigo", anunciava. Para retribuir a torta, os jovens enviaram uma cesta de café da manhã através do porteiro, telentrega cumprida em poucos passos.


Auditor fiscal aposentado, James Russo, 62 anos, vive no sétimo andar do Edifício Jaguaribe, prédio residencial do Centro Histórico. Sem filhos, divide o espaço com os dois gatos, Urraca e Rupert. A mãe dele, de 90 anos, vive em São Lourenço do Sul, no sul do Estado.


— A amizade que a gente criou mostra que é possível estabelecer empatia neste momento tão grave, e neste stress em que a gente vive, de extremos — avalia Russo.


O contato inicial com os vizinhos foi motivado por um encantamento do idoso com a decoração do apartamento, enquanto o grupo realizava uma festa junina — sem convidados externos. 


— É uma história tão simples, que chama atenção. É demais — diz o engenheiro eletricista Gabryel Prado, 24 anos.


Dos seis jovens, quatro são de São Paulo, e vieram ao Rio Grande do Sul para estudar. A proximidade encontrada com um até então desconhecido surpreende a subchefe de cozinha Tatiane Carrer, 30 anos:


— Temos uma amizade maior com ele do que com muitos do nosso próprio prédio.


Fotos: Lauro Alves | Agência RBS


As conversas, que no início se deram por meio de gritos sobre a movimentada via, deixaram a sacada e foram para o virtual. Desde terça-feira (15), um grupo de WhatsApp foi criado, com os sete integrantes, o “Sexto Andar + James”. Nas mensagens, o auditor enviou fotos de sua biblioteca particular e ofereceu os livros como empréstimo. E os amigos se divertem com a proporção que o caso alcançou.


— Criamos o grupo para decidir quem vai nos interpretar no cinema — brinca o chefe de cozinha Cauê Prado, 25 anos, sobre a repercussão.


No Instagram, a amizade ganhou ares de história em quadrinhos, nas mãos do artista Pablito Aguiar. O desenhista, que retrata temas do cotidiano, publicou uma tirinha a partir do olhar do estudante de Arquitetura e Urbanismo Paulo Henrique Vasconcelos Júnior, 27 anos. No quadro final do conto rabiscado, ele reafirma o sentimento do grupo: "que essa pandemia passe e a gente possa se encontrar pra tomar um cafezinho juntos".


Os novos amigos se ofereceram para fazer compras no supermercado, afirma o aposentado. O pedido não foi aceito porque outra amiga, que trabalha na limpeza do seu imóvel, tem essa incumbência. Ele garante que enquanto a pandemia não for controlada, ou uma vacina eficaz encontrada, seguirá limitando as saídas de casa. E todos esperam que o encontro presencial chegue logo.


Fonte: GZH

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