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Com inquérito inconclusivo, caso das crianças esquartejadas em Novo Hamburgo completa dois anos


O caso das crianças esquartejadas em Novo Hamburgo completou dois anos na última quarta-feira (4), e é considerado sem solução pela Polícia Civil do município da Região Metropolitana de Porto Alegre.

"O inquérito foi remetido ao Poder Judiciário sem elucidação. Se novas provas surgirem pode ser reaberto", resume Rogério Baggio, que era o titular da Delegacia de Homicídios na época do crime, e hoje responde pelo plantão da Delegacia de Pronto Atendimento de Novo Hamburgo.

Na promotoria de Novo Hamburgo, no entanto, o processo ainda está aberto.

O caso ficou marcado por reviravoltas e polêmicas. Primeiro, sete homens foram apresentados pela Polícia Civil como suspeitos de matarem as crianças, uma menina de 12 anos e um menino de 8, em um ritual satânico. Cinco deles chegaram a ser presos. Depois, a investigação revelou que a versão era falsa.

Quem apresentou a versão foi o então delegado plantonista da DHPP, Moacir Bernardo Fermino. Em uma entrevista coletiva, ele deu detalhes da história, que mais tarde provou-se falsa.

Ele teve como base o testemunho repassado por um informante da polícia. Os dois, juntamente com um inspetor da delegacia que atuou na prisão, foram indiciados por crimes de falsidade ideológica. Fermino ainda responde por corrupção de testemunha.

"Ele nega todas as acusações. Mais do que isso, não vou poder falar", disse o advogado de Fermino, José Cláudio de Lima da Silva. Quatro audiências já foram realizadas no processo, e o então delegado se preparada para ser interrogado, junto com os outros réus.

Ao ser indiciado, Fermino foi afastado de suas funções e, desde junho do ano passado, está aposentado pela Polícia Civil.

As crianças nunca foram identificadas.

'Atraso de vida', diz um dos indiciados pela versão falsa

Conforme o indiciamento falso, sete homens teriam realizado um ritual ocultista, em que haveria um sacrifício das crianças, para garantir fortuna e sucesso nos negócios. A cerimônia teria acontecido próximo de onde os corpos foram encontrados, por orientação de Sílvio Fernandes Rodrigues, líder de um templo que funcionava em Gravataí, Região Metropolitana de Porto Alegre.

Ele foi um dos indiciados e passou cerca de um mês preso. Passados dois anos do início do caso, ele diz que ainda sofre as consequências do indiciamento. "Onde eu vou, as pessoas dizem 'aquele cara é o das crianças esquartejadas'. Some uma criança em Porto Alegre ou Região Metropolitana e 'ah, é magia negra' e não teve nada a ver", comenta.

Sílvio afirma que não atende mais no templo, que foi alvo de perícias e chegou a ter o terreno escavado, em busca de provas. Contratou segurança particular, e não atende chamadas no telefone que não estejam identificadas, pois relata ainda sofrer ameaças.

"Essa situação gera um atraso de vida bastante complicado. Estou tentando tocar a vida com os cacos que sobrou. Dos cerca de 40 clientes que atendia por mês, hoje não sobrou 10%", estima Sílvio.

Ele acredita ter sofrido preconceito religioso por parte de Moacir Fermino, que, conforme Sílvio, chegou à sua residência dizendo que "era Deus que tinha vindo para prender Satanás", no dia da prisão. O religioso nega exercer práticas de satanismo em seus rituais.

Sílvio questiona, inclusive, o motivo de a denúncia contra o ex-delegado e os outros réus não incluir o crime de intolerância religiosa. "Hoje eu não acredito na polícia, não me sinto seguro. Não acredito no Judiciário, eles não vão julgar pelo que é justo, e sim pelo que eles acham", conclui.


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