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  • G1 RS

Grande golpe de roubo de carros era comandado de dentro de prisão no RS


No estacionamento de um shopping na Zona Norte de Porto Alegre, uma mulher mostra um veículo, ano 2017, que está vendendo por R$ 33 mil. Uma cena comum para quem vende e compra carros. A diferença é que o veículo é roubado e clonado. Ela faz parte de uma quadrilha e não sabe que está conversando com um repórter e sendo gravada por uma câmera escondida.

Na última semana, a Polícia Civil indiciou por diversos crimes 22 pessoas que foram presas durante a investigação do esquema.

Na negociação, a mulher explica que não pode baixar o valor e que só está mostrando o veículo, já que o carro é do irmão que não podia comparecer para fechar o negócio.

Repórter: "Ele quer R$ 33 mil no carro?"

Mulher: "É. Daí é com ele."

Fábio: "Toda a negociação é com ele?"

Mulher: "É..."

O suposto proprietário do carro é Fernando Martins Marques, de 41 anos. O homem está preso na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), na Região Carbonífera, a 70 km de Porto Alegre. De dentro da cadeia, ele comanda todo o esquema que busca vítimas em classificados da internet.

Uma das vítimas foi um senhor, que mora na serra gaúcha, e estava oferecendo uma caminhonete pelos classificados online. Ele pedia R$ 73 mil pelo veículo. Chefe da quadrilha, Fernando entrou em contato se passando por possível comprador interessado. Sem negociar muito, disse que compraria a caminhonete.

"Ele disse para eu levar a caminhonete para Porto Alegre. Disse que a esposa dele estava doente e se recuperando do câncer e que ela se apaixonou pela caminhonete e que ele pagaria o que fosse. Daí eu e meu filho fomos para Porto Alegre", conta a vítima.

O detento marcou encontro com o vendedor em uma rua no bairro Jardim Botânico, na Capital. Mas era uma armadilha para roubar o carro dele, como revelaram essas escutas telefônicas autorizadas à Polícia Civil pela Justiça, quando Fernando autoriza integrantes da quadrilha a roubar a caminhonete:

"Eu larguei mastigado, é que nem tirar doce de criança. O cara é lá de outra cidade, o cara vem lá do interior, ele vem trazer a caminhoneta pra vender. Vocês estão vendo a caminhoneta na frente do prédio, né? É que nem tirar doce de criança", diz Fernando.

"Se reagir, dá-lhe um tiro na cara!"

As escutas revelaram ainda que a ordem do chefe da quadrilha era executar as vítimas se houvesse reação.

Fernando: "Vocês estão com um ferro [arma] ou dois?"

Comparsa: "Tamo com um só."

Fernando: "Tá, mas é o suficiente. Se reagir, dá-lhe um tiro na cara! É 'nóis'! "

Nesse caso do áudio, a polícia estava esperando os criminosos e conseguiu evitar o roubo. Todos foram presos em flagrante, inclusive um motorista de aplicativo que levava os assaltantes para o roubo. Mas o susto do dono da caminhonete foi grande.

"Tu chega numa situação dessa, tu nasceu de novo", define.

O esquema

De dentro da Pasc, Fernando lidera o esquema. O primeiro passo é escolher um carro anunciado na internet. Depois, ele entra em contato com a vítima e finge a negociação, tudo usando o telefone dentro da cela.

"Ele conseguia realizar as ligações após as 16h, que era o momento que ele tinha contato com o aparelho de telefone celular, lá dentro da penitenciária de alta segurança. Eles se emprestam os celulares e, quando voltam do pátio, nesse horário, seguem os negócios criminosos", explica o delegado Rafael Liedtke, da Delegacia de Roubo de veículos do Deic, um dos que comandou a investigação.

O preso, além de ligar, também usa aplicativos de mensagens para convencer as vítimas. Um casal da Região Metropolitana havia colocado um carro para vender em um site de classificados. Ele disse que era militar e também disse que a esposa estava doente.

"Ele ficou tendo contato comigo pelo 'whats', falando, bem articulada a conversa, como se fosse uma venda normal, falou que era militar, que a mulher tinha câncer e que queria nosso carro para dar de presente", relata a vítima.

Eles combinaram o local para ver o veículo e finalizar a compra, mas, mais uma vez, quem apareceu foram bandidos armados que levaram o carro do casal.

"Foi tudo muito rápido, estava no Whatsapp com ele, ele dizia que estava chegando. Daí, chegou um jovem, bem arrumado, bateu com a arma no vidro, disse que tínhamos perdido. Pegou celular, carteira, tudo e levou nosso carro. Dizia para não olhar a cara dele. Tudo em questão de segundos", lembra a vítima que estava ao lado do marido no momento do roubo.

Clonagem e anúncio

Depois de roubar os carros, os criminosos levam os veículos para depósitos, onde os chassis, vidros e outros sinais identificadores são alterados. As placas são mudadas para de carros que estão em plenas condições de rodagem. Com a clonagem pronta, ele usam as mesmas páginas de classificados da internet para oferecer os veículos. Em outra escuta, o preso Fernando manda a mulher atualizar o anúncio.

Fernando: "Agora já tenho o texto formado na minha mente. Lê para mim: Excelente carro..."

Mulher: "Excelente carro, quitado, motor 1.0, ano 2017, modelo 2018, único dono."

Venda

Depois que surgem interessados nos carros roubados, a partir dos anúncios ma internet, Fernando se passa por vendedor. Diz que a família cresceu, que a esposa está doente e que precisa vender o carro. Diz que o carro é a cara do cliente e chega até baixar o preço. Marca locais para mostrar o veículo, mas pouco antes da vítima chegar ao local indicado, ele diz que não poderá ir, que está em reunião de trabalho, mas que a irmã, prima ou amiga vai levar o carro para ser visto.

"Essas mulheres são sempre na faixa etária de 20 a 30 anos. Mulheres bem vestidas, ou seja, mulheres que possam ludibriar as vítimas", diz o delegado Rafael Liedtke.

Foi exatamente isso que aconteceu com os contatos que a reportagem fez por telefone com Fernando.

Fernando: "Então, amanhã de tarde, quer dar uma olhada no carro?"

Repórter: "Que horário mais ou menos?"

Fernando: "Eu só consigo te mostrar no fim da tarde, tipo assim, quatro e meia, cinco horas, tem que ser um lugar bom para os dois. Eu 'tava' pensando ali no shopping Total, fica bom pra ti?"

Mas como está preso na Pasc, pouco antes do encontro, fala que a irmã estaria lá para mostrar.

Ela é a jovem que aparece no início da reportagem. Naquele momento, ela falava com ele por telefone.

"Oi mano, 'tô' aqui com o moço, aqui. Sim. Ele 'tá' olhando. Adorou o carro."

A equipe de reportagem disse que compraria o carro, que entraria em contato, e foi embora após gravar as imagens.

Vítimas compram carros roubados sem saber

Durante a investigação da Delegacia de Roubo de Veículos, da Polícia Civil, muitas pessoas procuraram os investigadores para relatar que foram roubados e que também compraram veículos roubados e clonados sem saber.

Um deles é um homem que mora na Região Metropolitana, que após ficar desempregado investiu tudo o que tinha em um veículo para trabalhar como motorista de aplicativo. Ele comprou o carro por R$ 31 mil, mas quando foi no cartório passar os documentos, foi avisado que tudo era falso.

"A minha sensação foi de desespero total, porque foram anos trabalhando. Não tinha mais de onde tirar dinheiro. Um filho pequeno de 11 meses... Perdi R$ 31 mil. Não tinha o que fazer mais", lamenta a vítima.

Dias antes, os verdadeiros donos do carro haviam caído na conversa e na armadilha do presidiário.

"Levamos o carro, só que quando a gente chegou era um indivíduo armado. Colocou o revólver na minha cintura, na minha barriga. Disse que eu tinha perdido, e a gente acabou perdendo o carro", conta a mulher que achava que estava vendo o carro da família.

Números do crime

Em apenas dois anos, dentro da cadeia, o chefe da quadrilha faturou mais de R$ 1 milhão, como ele mesmo diz em gravação.

Durante a investigação, a polícia localizou mais de 20 vítimas da quadrilha e chegou a verificar a audácia do presidiário que contava vantagem e revelava os números do crime, em outra escuta autorizada pela justiça.

Fernando: "Eu fiz o cálculo: hoje fechou dois anos que eu 'tô' trabalhando, né? 41 carros. Eu vou botar só popular, 20 pila (R$ 20 mil). Olha aí, quanto é que dá? 41 vezes 20: 820 (mil reais), então, esse é o lucro. Quando é HRV é 60 (mil reais), então 6 HRV... Então, 1 milhão e 20. Isso dentro da cadeia, imagina na rua?

Mulher: "Nossa, tu vai ficar milionário."

E ele debocha das vítimas.

"Dinheiro é mato, cara, cansa de pegar esses trouxas aí, tu não tem noção."

Mas a farra da quadrilha acabou no dia 26 de julho, quando mais de 200 policiais prenderam 18 pessoas envolvidas no esquema, como publicou o G1. O total de presos subiu para 22 nos dias seguintes.

Força-tarefa para combater crimes nos presídios

"Essa operação veio justamente no sentido de mostrar que a polícia está presente, que a polícia está sabendo o que está acontecendo, e que realmente nós temos que combater cada vez mais esse tipo de delito, ainda mais quando é cometido dentro das casas prisionais.

Vamos formar uma força-tarefa para combater esses crimes que são cometidos dentro dos presídio", informa a chefe de Polícia do Rio Grande do Sul, delegada Nadine Farias Anflor.

Na operação, os policiais encontraram dois celulares na cela de Fernando.

"A gente pensa que depois de ser preso e estar numa cadeia, esses indivíduos não vão mais fazer mal para quem está do lado de fora. Quem fica preso somos nós. É muito revoltante", desabafa uma das vítimas da quadrilha.

A dica para se proteger e evitar cair no golpe é sempre procurar o Detran antes de fechar qualquer negócio.

"No CRVA tem o serviço de vistoria e consegue ver se o veículo é clonado, se o veículo está dentro da sua regularidade, se o chassi não houve nenhuma violação, bem como outras peças, como vidros, motor. No próprio CRVA, com uma taxa em torno de R$ 60, consegue te dar essa certeza e essa segurança na hora de comprar um veículo, orienta o diretor geral adjunto do Detran-RS, Marcelo Soletti de Oliveira.

Presos e indiciados

Condenado a mais de 60 anos por roubo, porte de armas, sequestro, tentativa de homicídio e formação de quadrilha, Fernando iria para o regime semiaberto três dias antes da operação policial, mas acabou não tendo progressão de regime por falta de vagas e agora vai continuar preso pelos crimes revelados na investigação.

Os 22 presos foram indiciados pela Polícia Civil pelos crimes de organização criminosa, estelionato, uso de documentos falsos, porte e posse de armas e roubo de veículos e adulteração de sinal identificador.

Contraponto

O site usado para a compra e venda de carros é a OLX. A reportagem entrou em contato com a empresa e pediu um posicionamento.

Por meio de nota, a OLX diz que "está à disposição das autoridades para colaborar no que for necessário para a apuração dos fatos." Leia a íntegra abaixo:

"A OLX disponibiliza espaço para que usuários possam anunciar e comprar produtos e serviços de forma rápida e simples. A plataforma foi criada para auxiliar no desenvolvimento social e econômico do país e os usuários devem respeitar os nossos Termos e Condições de Uso. Quando isso não acontece, contamos com denúncia dos usuários para investigar as contas dos anúncios irregulares e removê-las definitivamente, como fizemos neste caso relatado pelo Fantástico. Ressaltamos ainda que a OLX está à disposição das autoridades para colaborar no que for necessário para a apuração dos fatos.

Para proteger nossos usuários contra fraudes, temos acordos estratégicos com empresas que são referência em serviços no mercado de compra e venda de autos, como o com o Itaú Unibanco, que oferece a ferramenta Compra e Venda Protegida, que guarda o sinal da transação de um veículo até que as partes envolvidas autorizem o pagamento para o vendedor. Também disponibilizamos a consulta online Checkauto, da DEKRA, na qual os interessados por um carro podem verificar, por meio do número da placa, a procedência e documentação do veículo, e investimos constantemente em tecnologia e serviços de orientação ao usuário para que adotem medidas para uma negociação bem-sucedida de compra e de venda. "

Fonte: G1 RS


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