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Soldado é agredido por colegas dentro de alojamento de quartel em Santa Maria


Um soldado foi agredido brutalmente por sete colegas em um alojamento do 29º Batalhão de Infantaria Blindada (29º BIB) em Santa Maria. Eles fizeram uso de um facão e cordas. A violência foi reconhecida pelo Exército, que classificou as agressões como tendo sido causadas "por meio de tortura, meio insidioso ou cruel". Os sete foram presos disciplinarmente e licenciados do Exército, que instaurou uma sindicância para investigar o caso. Leia na íntegra a nota oficial do Exército abaixo.

A violência aconteceu na noite da última segunda-feira. O jovem, de 20 anos, era um Soldado de Efetivo Variável (Sd. EV), que cumpria o serviço militar obrigatório. O nome dele não será informado pelo jornal para não expô-lo.

Conforme apurado pela reportagem, ele estava deitado na sua cama, em um dos alojamentos do quartel, quando foi surpreendido pelo grupo. Os agressores teriam tirado a vítima da cama e a imobilizado no chão. Enquanto um deles filmava, outros seis cometiam a agressão, com uso de cordas e um facão. A violência teria se estendido por pelo menos 10 minutos.

Quando um oficial de serviço flagrou o que estava acontecendo, mandou, após assistir à gravação, que as imagens registradas fossem apagadas. Um soldado disse para que escondessem o facão e as cordas. Outro oficial prestou socorro ao soldado agredido. A vítima sofreu ferimentos principalmente na região das costas, pernas e mãos.

OS FERIMENTOS

A família da vítima só ficou sabendo o que tinha acontecido dois dias depois, na quarta-feira. O soldado agredido havia pedido para que lhe buscassem no quartel, mas não deu detalhes quanto ao que tinha acontecido. Ele é natural de uma cidade da Região Central do Estado, onde sua família reside atualmente, e "deu baixa", ou seja, foi licenciado do Exército.

Conforme o documento do exame físico feito por um médico do 29º BIB, obtido com exclusividade pelo Diário, o jovem sofreu "ofensa à integridade física", tendo sido usados "facão e corda", produzida "por meio de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura, meio insidioso ou cruel". As agressões não teriam lhe causado "debilidade permanente ou perda de sentido". Em resumo, o médico apontou que: "apresenta pequena equimose sob leito ungueal (parte abaixo das unhas das mãos e dos pés), sem mais lesões e/ou agravos à sua integridade corporal, muito embora tenha referido ter sido agredido com um facão e uma corda, ambos com ação contusa".

O jovem, no entanto, conforme apurou a reportagem, apresenta diversos hematomas na região das costas, pernas e mãos, e deve passar por novo exame, dessa vez junto ao Instituto Médico Legal (IML). O início de um tratamento psicológico também deve ser encaminhado.

UM DOS AGRESSORES SE MANIFESTA

Um dos soldados apontado como um dos envolvidos na agressão se manifestou quanto ao que aconteceu em um áudio obtido pelo Diário. O áudio foi repassado à reportagem. Ele relata que as agressões teriam sido cometidas como forma de "trote", pois o soldado, que não pretendia seguir uma carreira no Exército, seria licenciado na quarta-feira. Ele disse ainda que os seus colegas, desde cedo naquele dia, estavam "de frescura, com essas brincadeiras de se estapear, lá no alojamento". Confira a transcrição do que ele disse:

"Eu estava lavando roupas. E nisso passou os outros seis, e falaram que estavam de frescura, de pacotão, não sei o que, e que eles iam lá no soldado (para cometer as agressões). E aí, eles me chamaram. Eu falei que estava lavando as minhas roupas, e que eu não ia ficar de frescura até porque eu não tinha muita intimidade com ele, eu não era amigo próximo dele para ficar de sacanagem. E nisso eles foram. E eu terminei de lavar minhas roupas, estava indo lá para fora porque meu pai queria falar comigo no WhatsApp, e lá dentro não pega sinal direito. E nisso, quando eu passei no alojamento, eles já estavam de frescura (cometendo as agressões). E aí, eu subi na cama para olhar. Um deles já estava gravando. Ele pegou, e me alcançou o celular. Eu estava sentado na cama, mexendo no meu celular, no WhatsApp para falar com o meu pai, e eu só segurei o telefone que ele me passou. E eu fiquei pouco tempo ali. Não fiquei o tempo todo, desde o início até o final. Quando caiu o sinal do meu celular, eu fiquei mais uns segundos ali, larguei o telefone (com o qual estava gravando), peguei o meu celular, e fui lá para fora. E fiquei sentado lá fora. Não fiquei o tempo todo lá dentro. Em seguida, eles saíram, e então o soldado saiu. E um oficial colocou a gente

sentado, e começou a conversar com a gente. Foi isso que aconteceu. Mas eu não cheguei perto, e não agredi ele. Foram os outros".

A NOTA OFICIAL DO EXÉRCITO

Segundo nota oficial do Exército, enviada ao Diário, o comandante do 29º BIB, tenente-coronel André Dias, informa que:

"1. Oito Soldados previstos para o licenciamento em 20 de fevereiro, em clima de exaltação, iniciaram algazarra no alojamento de uma subunidade do Batalhão;

2. Essa atitude, inadequada e incompatível com os preceitos e normas vigentes no âmbito do Exército Brasileiro, foi prontamente controlada pelo pessoal de serviço, com imediato restabelecimento da ordem, disciplina e das condições de segurança necessárias ao bom andamento das atividades da Organização Militar.

3. No momento em que foi passada a alteração disciplinar a este Comandante, foram adotadas as seguintes medidas:

  • a) Ouvidos todos os envolvidos, inclusive os 8 militares que participaram da algazarra, ficou caracterizada transgressão disciplinar, pois os soldados portaram-se de maneira inconveniente e sem compostura, conforme descrito no número 40 do Anexo I do Regulamento Disciplinar do Exército;

  • b) Procedido exame de higidez física por médico perito do Batalhão em um dos Soldados envolvidos na confusão, que reclamou haver sido agredido. O resultado do referido exame constatou que o militar não apresentou lesões e/ou agravos à sua integridade corporal;

  • c) Os demais 7 militares inseridos no evento foram presos disciplinarmente para a preservação do decoro da classe e necessidade de pronta intervenção por parte deste Comandante; e

  • d) Instaurada uma medida administrativa (sindicância) para verificar outros possíveis aspectos acerca do fato ocorrido.

4. A punição aplicada foi exemplar, tendo em vista a alteração cometida e porque o Exército Brasileiro repudia veementemente atitudes dessa natureza:

5. Na data prevista para o encerramento do serviço militar, dia 20 de fevereiro, todos os oito Soldados implicados na alteração disciplinar foram licenciados e receberam seus certificados de reservista."

Fonte: Diário de Santa Maria


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