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Polícia Federal indicia uruguaios por tráfico internacional de armas


A Polícia Federal acaba de remeter à Justiça um inquérito que responsabiliza seis moradores da fronteira Brasil-Uruguai por tráfico internacional de armas. Entre eles estão três policiais uruguaios, que adquiriram pelo menos 353 armas em lojas do seu país, para revenda a brasileiros. Grande parte delas acabou em mãos de quadrilheiros gaúchos.

Os policiais foram afastados das funções, processados e condenados no Uruguai, mas já estão em liberdade condicional. Agora foram indiciados no Brasil e podem ser processados, desta vez pelos crimes cometidos com essas armas em território brasileiro. É o maior rastreamento de origem-destino de armamento já feito pela PF no Rio Grande do Sul.

Foram indiciados o agente investigador J. A. M. C., lotado em Rivera (fronteira com Santana do Livramento). O agente W. O. R. P., de Rivera, e o agente J. J. A. F., que atuava em Artigas, fronteira com a cidade gaúcha de Quaraí.

Foram indiciados pela PF, também, três contrabandistas de armas. Um deles, o uruguaio Ernesto "Cachorrinho" Vargas, é considerado um dos maiores traficantes (de arsenais e drogas) da região da Fronteira, responsável pelo envio de armamento desde o Uruguai até a Grande Porto Alegre. Ele já está preso, cumprindo pena por homicídios. Os outros dois indiciados são um homem flagrado na intermediação da venda de pistolas austríacas de um policial (Arocena) para Cachorrinho Vargas e uma mulher, presa em flagrante com um fuzil transportado em ônibus de linha.

A suspeita é que a quadrilha tenha revendido todas as 353 armas para pessoas no Rio Grande do Sul, sobretudo criminosos. Mas a PF só conseguiu, até agora, comprovar o tráfico de 79 armas: pistolas calibre 9 mm (restrito a uso por policiais e militares, no Brasil), .380 e 7.35 mm. E fuzis calibre 5.56 mm. Todas foram apreendidas no Rio Grande do Sul. A maioria, de calibre vetado a cidadãos brasileiros. As outras 279 armas se sabe que foram compradas pelos 3 uruguaios, mas não há certeza do destino.

Os policiais uruguaios não trouxeram as armas para o RS. Isso foi feito por intermediários, como os integrantes da quadrilha de Cachorrinho Vargas. O arsenal foi adquirido em lojas uruguaias (armerías) pelos policiais, usando da condição de colecionadores e agentes do Estado a quem é permitido a compra do armamento. Viraram clientes preferenciais de duas armerías de Montevidéu. Eles adquiriram o arsenal na capital uruguaia e o levaram, de ônibus ou carro, até a fronteira com o Brasil.

Cada pistola, por exemplo, era comercializada na loja de armas uruguaia por US$ 1,1 mil (cerca de R$ 4,1 mil) e repassada duas vezes mais cara nas ruas da capital gaúcha. Um fuzil calibre .223 (como o AR-15, de fabricação norte-americana) custa US$ 3,3 mil nas casas de armamento (armerías), mas era revendido por até US$ 10 mil (R$ 38 mil) no submundo do RS.

O inquérito utiliza como provas tanto as listas de armas adquiridas pelos policiais em armerías uruguaias quanto diálogos travados por eles com os traficantes "doble chapa" (com dupla nacionalidade, brasileiro-uruguaia), em mensagens de WhatsApp. Parte desses diálogos foi interceptada pela Polícia Civil numa operação. Já a compra e entrega do armamento foi documentada e filmada pela Polícia Nacional do Uruguai, que atuou em colaboração com a PF.

— Juntamos como provas todos os autos de apreensão e laudos periciais de armas apreendidas com quadrilheiros gaúchos e compradas pelos policiais uruguaios — pondera um dos responsáveis pela investigação da PF.

A PF também relatou os envolvimentos de algumas dessas armas em crimes, como os que foram revelados na reportagem O Poder das Facções, feita pelo GDI. É o caso de três pistolas usadas pela quadrilha de Alexandre Goulart Madeira, o Xandi, traficante porto-alegrense executado em Tramandaí em 4 de janeiro de 2015. Elas foram adquiridas pelos policiais uruguaios J. M. C. e W. O. R. P. em Montevidéu e revendidas à quadrilha gaúcha. O GDI rastreou outros 13 casos em que armas dos policiais uruguaios foram usadas em crimes no Rio Grande do Sul.

Os indiciamentos serão agora examinados pelo Ministério Público Federal - que recentemente denunciou o policial Arocena e Cachorrinho Vargas por outros casos de tráfico de armas.

O que disse o policial J. M. C.: Na Justiça, declarou ter comprado legalmente as armas para revendê-las e admitiu saber que o comprador era relacionado a narcotraficantes brasileiros. Ele disse que tentou desistir das compras, mas foi ameaçado.

O que disse o policial W. O. R. P.: Na Justiça, admitiu ter feito compras de armas em Montevidéu para um conhecido quadrilheiro e contrabandista uruguaio. Ele nega ter feito contrabando.

O que diz J. J. A. F.: A defesa não foi localizada. Em juízo, admitiu que comprava armas, mas não sabia que seriam revendidas a criminosos.

O que disse Ernesto "Cachorrinho" Vargas Villanueva: O seu advogado não foi localizado. Em outro processo por tráfico de armas, movido na Justiça estadual, Vargas se recusou a falar. Na fase judicial, a defesa de Vargas alegou nulidade das provas, argumentando que o crime atribuído a ele é da esfera federal e que a Polícia Civil não é competente para fazer o inquérito. A Justiça Estadual aceitou parcialmente a argumentação e mandou o caso para a Justiça Federal, onde está em fase de coleta de testemunhos. Os indícios apontados pela Polícia Civil foram enviados também à Justiça Federal, como provas.

TEXTO E FOTO: Clic RBS


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