O poder das facções: Detento do Presídio Central chefia quadrilha binacional


Ao rastrear a compra de centenas de armas por parte de agentes uruguaios, as polícias Civil e Federal solucionaram parte do mistério sobre o arsenal que alimenta as facções gaúchas. Mas quem viabilizaria a entrega do armamento na Grande Porto Alegre?

São as próprias facções, que têm conexões nas fronteiras uruguaia e argentina, constatam dois delegados da Polícia Federal (PF) em Santana do Livramento, Alessandro Lopes e Leonei Almeida. As quadrilhas traficam droga para uruguaios, em troca do armamento, revendido por policiais.

Essa é a forma de abastecer o mercado do tráfico no país vizinho, superaquecido desde que houve a liberação da venda de maconha em farmácias, há cerca de dois anos, analisam os policiais. Mas a troca da erva por armas não é inofensiva.

Os equipamentos comprados no Uruguai são usados pelas facções gaúchas para matar seus desafetos e também para cometer assaltos. Isso está mais do que comprovado, confirma a delegada regional da Polícia Civil em Santana do Livramento, Ana Tarouco.

Foi um antecessor de Ana no cargo, delegado Eduardo Finn, quem investigou a rota das armas uruguaias até Porto Alegre. Em oito meses de apuração, em 2015, descobriu que o esquema de troca de armamento comprado no Uruguai por droga fornecida desde a Região Metropolitana (e vinda do Paraguai, numa triangulação) era comandado desde a cadeia.

As ordens para enviar armas e munições partiam das penitenciárias estaduais de Santana do Livramento e Modulada de Uruguaiana, enquanto o envio de entorpecentes em direção à Fronteira Oeste era gerenciado de dentro do Presídio Central e das penitenciárias do Jacuí e de Alta Segurança, ambas em Charqueadas. Por trás, há uma quadrilha de criminosos doble chapa, com nacionalidades brasileira e uruguaia.

O líder do grupo, que acabou condenado e cumpre pena até hoje, é o uruguaio Ernesto Andres Vargas Villanueva, conhecido como Cachorrinho. Ele estava preso por dois assassinatos (de traficantes rivais).

Por meio de milhares de horas de telefonemas interceptados com autorização judicial, a polícia comprovou que ele ordenava ataques a desafetos, venda de armas e compra de maconha e cocaína. Tudo atrás das grades.

O transporte de entorpecentes e armamento, numa via de mão dupla, era comandado por ele. Pistolas e fuzis eram comprados de policiais uruguaios. A droga, Cachorrinho adquiria na Região Metropolitana com facções, principalmente Os Manos – que compram maconha e cocaína no Paraguai.

— Vargas é um atravessador, o cara que faz o meio de campo entre facções e consumidor na Fronteira — resume a delegada Ana Tarouco.

Guri é fuzil e guria, pistola

Conversas interceptadas pela polícia mostram versatilidade de Cachorrinho Vargas no trato com as facções. Numa delas, pede para Vinícius Feijó (preso com carros roubados, em companhia de líderes de facção do Vale do Sinos) confirmar o recebimento de sete caixas de munição e duas pistolas calibre 9 mm.

Feijó aproveita para encomendar uma escopeta calibre 12 automática. A arma seria entregue na Estação Rodoviária de Porto Alegre, via ônibus. Os fuzis são apelidados de “guris” e as pistolas, de “gurias”. São oferecidos fuzis canadenses, tchecos, russos e pistolas austríaca e israelenses, além de metralhadoras, revólveres e munições.

Em outro diálogo, Alex Borges Vilagrande – apontado como gerente da boca de fumo de Vargas – fala em comprar armas de Juan José Arocena Fernandez – um dos policiais uruguaiosresponsáveis por fornecer 423 pistolas e fuzis às principais organizações criminosas gaúchas.

A mulher de Vargas vai até a casa dos fornecedores e fotografa fuzis e pistolas, para mandar ao marido preso, como se fosse catálogo. Há também crueldade. Por telefone, Vargas pede a um comparsa que descubra quem é o X9 (informante) da polícia, para poder “cortar a cabeça e a língua dele”.

O ataque à organização de Cachorrinho Vargas foi feito por 80 policiais civis comandados por Eduardo Finn, que prenderam 29 pessoas e indiciaram 72 por tráfico e contrabando, em 2015. Com eles, foram encontradas 16 armas, inclusive fuzis.

Finn estima que o bando lucrava R$ 80 mil mensais com venda de armas e R$ 300 mil com drogas. Cachorrinho Vargas tem migrado de presídio em presídio – hoje está no Central. Conforme os policiais, é um dos raros quadrilheiros que tem trânsito livre entre as alas controladas pelas diversas facções.

Contrapontos

O que diz Ernesto Andres Vargas Villanueva:

O defensor de Villanueva, advogado Marcelo da Rocha Trélles, não foi encontrado por GaúchaZH e não atendeu aos telefonemas com pedido de entrevista. Na fase criminal do processo por tráfico de armas, o indiciado se recusou a falar.

Na fase judicial, a defesa de Villanueva alegou nulidade das provas, argumentando que o crime atribuído a ele é da esfera federal e que a Polícia Civil não é competente para fazer o inquérito. A Justiça Estadual aceitou parcialmente a argumentação e mandou o caso para a Justiça Federal, onde está em fase de coleta de testemunhos. Os indícios apontados pela Polícia Civil foram enviados também à Justiça Federal, como provas.

O que diz Juan José Arocena Fernandez:

A defesa não foi localizada. Em juízo, admitiu que comprava armas, mas não sabia que seriam revendidas a criminosos.

Fonte GaúchaZH


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