Santanense conta ao Jornal Zero Hora como foi largar tudo para viver em comunidade junto à natureza,


Foi num sonho que Daniella Porciuncula, 30 anos, vislumbrou o que queria para seu futuro: achar sua tribo longe do consumo pelo consumo e da correria dos centros urbanos. A seguir, ela conta como, ao lado do companheiro, Lupe Ronchi Schüler, 28, e da filha, Jahsmin, um ano e meio, encontrou seu lugar na Nação Tutumbaiê (facebook.com/nacaotutumbaiers), uma comunidade em Itaara que busca um modelo de vida coletivo, em conexão com a natureza e com rituais xamânicos. E nos fala da alegria de dormir ao som dos sapos e sequer lembrar de olhar para o relógio. “Não tenho uma casa cheia de cômodos, televisão, ar-condicionado. Mas temos a porta de casa sem chaves, de frente para uma mata exuberante e debaixo de um céu estrelado. Meus amigos-irmãos moram comigo.”

Desde criança sentia que a vida tinha algo a mais. Sempre acreditei numa força mágica, numa mística que existia oculta nas coisas e guardava isto como um segredo a ser compartilhado com poucos. Fui crescendo, e essa realidade mágica adormeceu dentro de mim. O tempo passou, fui morar sozinha: faculdade, cidade grande, festas, pessoas… De vez em quando, um sonho me recordava. Certa noite, cansada de estudar, adormeci. Em sonho, fui chamada a uma tribo. Era uma aldeia com tendas e pessoas cheias de penas, todas familiares. Quando cheguei em meio a todos aqueles índios, eles me reconheceram, e meu rosto se coloriu com as sete cores do arco-íris. Assim fui aceita na tribo. Acordei com uma sensação muito boa e com saudade daquele lugar.

Passaram-se anos, vivências, pessoas, desafios e crises. No decorrer do caminho, encontrei um companheiro de caminhada. Juntos, sentimos a necessidade de começar uma busca espiritual mais profunda, de encontrar um sentido maior para a existência que vai além do conforto material e da satisfação de prazeres mundanos. Nessa procura, encontramos uma comunidade, uma casa de oração, de cura e crescimento espiritual: a Nação Tutumbaiê, localizada na serra de Itaara, pequeno município vizinho de Santa Maria. Lá vivem hoje cerca de 20 moradores, entre crianças e adultos, e o foco principal são os trabalhos cerimoniais xamânicos com as Medicinas Sagradas, incluindo sessões abertas ao público. Encontrando essa casa da verdade, nos encontramos. Encontrei, assim, a tribo que havia me recebido no sonho. Percebi que os índios eram, na verdade, jovens que nem eu, buscando uma nova forma de vida.

Seguimos nossa vida, estudos, profissão. Até que a inquietude e a vontade de mergulhar mais profundamente naquela forma de vida nos levou a uma grande entrega. Essa entrega deveria ser por inteiro, e, para isso, era preciso deixar para trás muitas coisas: casa, conforto, segurança, trabalho. Entregamos as chaves do apartamento alugado e ficamos sem casa. A comunidade ainda não tinha estrutura para nos receber como moradores. Então, passávamos um tempo acampando lá e outro tempo viajando. Às vezes na casa dos pais, às vezes na de amigos. Foi uma experiência interessante, mas, depois de um ano assim, sentimos necessidade de firmar raízes na terra. Fomos morar numa casinha no alto de um cerro na nossa cidade natal, Santana do Livramento.

Mas no nosso coração pulsava o chamado por aquela aldeia. Sendo assim, os ventos nos levaram de volta à nossa casa espiritual. Literalmente, os “ventos nos levaram”. Certo dia, exatamente no solstício de verão, estávamos em casa desenvolvendo um trabalho musical e vimos que nublou de repente. Foi só o tempo de entrar pra dentro de casa que um vento muito forte começou a derrubar as árvores ao nosso redor e, em poucos minutos, levou também o telhado da casa. A única coisa que podíamos fazer era rezar. Acompanhados de dois gatos e dois cachorros, permanecemos em oração e, graças a Deus, ninguém se machucou. O tornado levou a nossa casa e, junto com ela, todos os nossos medos e inseguranças. Foi no meio da tempestade que percebemos que nosso lugar não era ali.

Compreendendo o sinal da Natureza, fomos morar na comunidade, mesmo sem ter estrutura para nos receber. Vivemos sem casa, sem luz, sem banho quente. Vivemos um tempo assim e aprendemos muito. Em poucos meses vivendo lá, descobri que tinha mais alguém que havia escolhido levar essa vida conosco. Estava carregando Jahsmin no meu ventre. Para sua chegada, ajeitamos o que foi possível. Com uma casinha bem pequenininha, energia solar e água do banho aquecida à lenha, esperamos sua chegada. A gestação foi tranquila, e o trabalho de parto, emocionante. Preparamo-nos muito bem durante toda a gestação, e estávamos abertos para que o nascimento fosse como tivesse que ser. Assim, Jahsmin chegou na primavera, como todas as flores, e nos trouxe muita alegria. Ela nasceu nessa casinha pequenininha mesmo, numa noite de chuva, acompanhada dos irmãos da caminhada e dos guias espirituais. Foi assim que ela chegou e mamou, e dentro da toca ficamos até sentir vontade de sair para receber a luz do sol no rosto e ver as flores da primavera.

Assim vivemos hoje. Não tenho uma casa cheia de cômodos, banheiros, televisão, ar-condicionado, essas coisas todas. Mas temos a porta de casa sem chaves, de frente para uma mata exuberante e debaixo de um céu estrelado. Dormimos ao som dos sapos e do rio, e os jardins são cheios de beija-flores. Meus amigos-irmãos moram comigo. Acordamos, rezamos, nos alimentamos bem e trabalhamos. Plantamos uma parte do nosso alimento. Nós mesmos construímos nossas casas, elaboramos nossas medicinas e produtos de higiene. Fazemos arte, música, pinturas, roupas e artesanato. Buscamos viver de forma sustentável e em harmonia com a natureza. Às vezes, percebo que passo dias sem olhar para o relógio e agradeço por não precisar depender de estar sempre presa àquela corrida de ponteiros. Agradeço por todas as oportunidades de aprendizado que a vida me oferece. Por poder me reconhecer e me transformar a cada dia, aprendendo a vencer o meu maior inimigo: eu mesma. Superando os meus próprios medos, crenças e limitações. Me sinto realizada por poder ver em cada dia uma nova oportunidade.

O sonho se realizou, está se realizando, e assim será eternamente. Sonhamos ainda com o aprimoramento da comunidade. Com uma escola para as crianças, alimentos puros e energia totalmente sustentável.

Assim, a partir destas experiências, o melhor que posso dizer é: “Não desista dos seus sonhos. Retorne à sua infância e lembre como você pensava. Traga a sua criança de volta e conte a ela que esse sonho é possível. Cuide e nutra o seu sonho com a responsabilidade de um adulto. Não perca tempo sonhando o sonho dos outros. A vida é agora em eterna e constante Criação. Você é o cocriador da sua realidade”.

TEXTO PUBLICADO NO CADERNO DONNA DA ZH


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